Zé Ninguém

Zé ninguém

Sou um Zé ninguém
um homem sem voz nem vez
ando de norte a sul
de uma ponta a outra
ninguém me olha
não tenho alguém que me acolha

ando, ando e ando
sem eira
sem beira
vivo lá no fundo
nos confins do mundo
terra sem nome
com dias de fome

Sou um Zé ninguém
não tenho paradeiro
nem aqui, nem no estrangeiro
sou um ninguém

Os que têm casas nas cidades
são os mesmos que têm nas centralidades
e eu aqui na banda
sempre com nada.

nasci numa cobata
feita de manteiga de pó
perto da Libata e da Kahata
e não tenho orgulho de exibir

Cresci...
Aqui mesmo onde nasci
e a partir deste fundo
vejo os prédios como algo doutro mundo
um pequeno céu
e as centralidades como paraíso

Até quando...
até quando?
Vejo as trevas a me perseguir
aonde poderei fugir?
só a miséria e a malária
fazem-me companhia...
Longe de hospitais
e a me curar com os vegetais

Ando acabrunhado
a minha alma está inconsolável
sinto-me um abandonado
de humano tenho apenas a vida
e sobrevivo da miséria à minha disposição.

Poeta Nunca Visto, Setembro de 2000.23

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